Pular para o conteúdo principal

Brasil em alerta: Seis mulheres mortas por dia e um sistema que falha - por Oscar Mariano


Primeira pergunta: O que comemorar no dia 8 de março? E não faço essa pergunta com desdém e muito menos com machismo, mas com muita preocupação. 


O Brasil vive uma tragédia cotidiana que já não pode ser tratada como estatística fria ou como mero debate ideológico. Em 2025, o país registrou 6.904 vítimas de feminicídio consumado e tentado, um aumento brutal de 34% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 5.150 ocorrências. Foram 2.149 mulheres assassinadas e 4.755 tentativas, o que significa que quase seis mulheres são mortas por dia no Brasil. É um massacre silencioso, constante e perverso.


Não se trata de casos isolados. Trata-se de um padrão estrutural de violência doméstica que se repete dentro das próprias relações afetivas. Dados revelam que 8 em cada 10 feminicídios no país foram cometidos pelo ex ou atual parceiro da vítima. Ou seja, o maior risco para muitas mulheres não está na rua, mas dentro de casa, na intimidade de relacionamentos marcados por controle, ciúme doentio e sentimento de posse. O feminicídio, na maioria das vezes, não nasce do impulso, nasce da escalada de violência já anunciada. Em inúmeros episódios recentes, mulheres foram assassinadas mesmo possuindo medidas protetivas previstas; medidas essas que se demonstram ineficazes. Recorreram ao Estado, denunciaram, pediram socorro formalmente e ainda assim morreram. O papel foi concedido. A vida, não foi preservada.


A realidade é dura: medida protetiva sem fiscalização efetiva, sem monitoramento rigoroso e sem resposta policial imediata é um documento simbólico. Há casos em que o agressor já havia descumprido ordens judiciais anteriormente. Há situações em que a vítima comunicou ameaças reiteradas. Mesmo assim, o sistema falhou. E quando o Estado falha, o resultado é o caixão. O Brasil possui uma legislação considerada avançada no papel. O feminicídio é qualificado no Código Penal. Mas o que os números revelam é que a legislação, como está, não tem sido suficiente para conter a escalada da violência letal contra mulheres. O problema não é apenas jurídico é estrutural, mas também é penal.


Enquanto isso, a Itália avança para um modelo mais rígido, admitindo prisão perpétua para homens extremamente violentos e reincidentes em casos graves de agressão e feminicídio. Lá, a mensagem é clara: quem transforma a mulher em alvo permanente perde definitivamente o direito à liberdade. No Brasil, a pena máxima é limitada. Progressões ocorrem. Benefícios são concedidos. E, muitas vezes, a vítima já havia alertado que seria morta.


É preciso dizer com clareza: o feminicida não é um agressor ocasional. Ele é alguém que demonstra desprezo absoluto pela vida da mulher. Muitos dão sinais prévios, praticam violência psicológica, física, patrimonial, ameaçam, perseguem. Quando chegam ao homicídio, a escalada já era visível. Defender o endurecimento das penas não é clamar por vingança, é exigir proteção efetiva. Se quase seis mulheres são mortas por dia, o país não enfrenta apenas um problema criminal enfrenta uma falência de proteção. Cada número representa uma história interrompida, filhos órfãos, famílias destruídas.


A pergunta que precisa ser feita não é se as leis devem ser mais duras. E agora vem a segunda pergunta é: quantas mulheres ainda precisarão morrer para que o Brasil trate o feminicídio como a emergência nacional que ele é?


Oscar Mariano 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Legado de Fátima Quintas: O Tempo, a Cultura e a Escrita - por Marcos Carneiro Xepa

 FELIZ ANIVERSÁRIO! A renomada antropóloga, contista, ensaísta e cronista brasileira. Maria de Fátima de Andrade Quintas, nasceu num período carnavalesco em 28 de fevereiro de 1944, em Recife. Herdou do seu pai, o famoso historiador pernambucano, Amaro Quintas, o hábito de escrever e ler. Formou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco e em pós-graduação em Antropologia Cultural no Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina, em Lisboa.  Fátima Quintas contribui significativamente para grandeza da literatura e antropologia brasileira. Suas pesquisas em torno das obras de Gilberto Freyre a transformou em uma das mulheres notáveis como pesquisadora e escritora. Em seu pioneirismo acadêmico. Foi a primeira mulher a assumir o cargo de presidente da Academia Pernambucana de Letras de 26 de janeiro de 2012 a 26 de janeiro de 2016, ocupa a cadeira 31 desde 3 de abril de 2003.  Pela sua grandeza literária, destacou-se em várias entrevistas para a m...

Nasceu Maria Clara

 Nasceu Maria Clara no dia 06/03/2025, no hospital Instituto Pernambuco (IP), em Caruaru. Filha do casal Alann Rogério e Gisely Raiane, a recém-nascida é bisneta do casal Fábio Santana e Maria Marques. Alann Rogério, pai da criança, agradeceu ao Senhor Deus pela chegada da menina. "Clarinha é um grande presente de Deus para mim e para minha esposa", afirmou. Bisavô de "Clarinha", o comunicador Fábio Santana, que também é colaborador de Contexto Blog, demonstrou muita alegria com o crescimento da família. "É uma bênção de Deus o nascimento da minha bisneta Maria Clara, linda e saudável", declarou, emocionado. Avó da recém-nascida, a professora Alanna Ynis traduziu em palavras um pouco da sua emoção e fé. "Família é uma bênção de Deus, e Clarinha chegou para nossa alegria", disse Alanna, que é mãe do pai de Clarinha. Contexto Blog também saúda a recém-nascida e parabeniza a família, desejando-lhes que as bênçãos divinas sejam abundantes. Alanna Yni...

Sustentabilidade, empregabilidade e gamificação são os temas em alta no segundo dia do 21° Congresso Internacional de Inovação na Educação

  O segundo dia (02/10) do 21° Congresso Internacional de Inovação na Educação será marcado por discussões que conectam o presente e o futuro da educação, com foco em temas como sustentabilidade, empregabilidade e gamificação. O evento, promovido pelo Sistema Fecomércio/Sesc/Senac-PE, acontece entre os dias 1 e 3 de outubro e tem como objetivo fomentar reflexões e práticas inovadoras no ensino. Com uma programação híbrida, realizada presencialmente no Recife Expo Center, no Bairro do Recife, e também transmitida online, o congresso amplia o alcance do debate para educadores, estudantes e profissionais de todas as regiões do país. No auditório principal, a programação tem início às 9h com a palestra "Gamificação e Metodologias Ativas: Como conectar tendências e práticas que engajam de verdade", conduzida pela professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e referência em inovação pedagógica, Auxiliadora Padilha. Na sequência, às 10h, é a vez do cientista da computação...