Acredito que a experiência de
2020 será um marco decisivo na educação, visto que a pandemia do Covid-19 nos
apresenta, mais do que nunca, a necessidade de repensar o papel social da
educação para além do processo de escolarização. No Brasil medidas emergenciais
foram tomadas para garantir o processo educativo, entre elas, o trabalho
educacional remoto. No entanto, diante de tantos imprevistos, gestores,
professores, estudantes e famílias encontraram-se num momento de muita pressão,
com várias dúvidas e incertezas.
Diante da atual situação, os
limites impostos têm nos apresentado possibilidades inegáveis de transformação,
o que nos remete a uma série de questionamentos: há efetivamente uma
preocupação com a qualidade social da aprendizagem? O que este período nos
informa a respeito de nossos estudantes e de suas famílias com relação as
nossas práticas como educadores? O que
faz sentido manter e o que mudar? É possível repensar o papel da escola e da
sociedade na formação das novas gerações?
Podemos dizer que uma consequência positiva desta quarentena será um
maior envolvimento das famílias na vida escolar dos estudantes?
A Constituição Federal prevê
condições de igualdade no acesso à oferta educacional, e é fundamental
compreendermos as questões estruturais que afetam esse direito. É notório que
as experiências, sejam boas ou ruins, proporcionam-nos aprendizados, e essa
pandemia enfatizou fragilidades voltadas para condições diversas das escolas
das regiões brasileiras, entre elas, as voltadas para o acesso e uso adequado da tecnologia, a
valorização dos profissionais da educação, a formação continuada desses
profissionais e a valorização do espaço escolar.
A Base Nacional Comum
Curricular (BNCC) ressalta a importância da valorização do contexto do estudante
para dar sentido ao que se aprende, e destaca o protagonismo do estudante em
sua aprendizagem e na construção de seu projeto de vida. Tendo em vista que o currículo apresenta
orientações que vão muito além de um conjunto de conteúdos, destacam-se as competências
(os conhecimentos, habilidades e atitudes que os estudantes desenvolvem),
asseguradas quando os saberes dos estudantes são levados em consideração,
quando o conhecimento adquirido contribui para o reconhecimento, o respeito e a
valorização do outro, quando o professor estimula a troca de informações e
ideias, mantém o foco em informações e conteúdo importantes, promove
associações entre informações novas e as já absorvidas, relaciona conteúdo de
diferentes áreas do conhecimento, fornece informação quando os estudantes
apresentam dificuldades de expor suas ideias e quando há oportunidade para
aprofundar a discussão.
Podemos dizer que a escola é
um espaço de criação de consenso, de diálogos, de convivências, e que educar é
também propagar o respeito mútuo, o respeito à diversidade, com base na
convivência e na integração do cotidiano escolar. Portanto, garantir o exercício do diálogo é
preparar os estudantes para tomarem decisões e participarem ativamente dos espaços
em que estiverem inseridos, seja na comunidade, no trabalho, na escola. Além
disso, os estudantes precisam aprender a escutar, argumentar, respeitar a
diversidade e a divergência, adotar valores e posicionar-se no mundo por meio
do que aprendem em todos os espaços que frequentam. Acredito que não temos mais
a prática e talvez o tempo necessário para buscar nossa história. Hoje as
pessoas não demonstram ter paciência e disposição para escutar o próximo, saber
sobre o outro e muito menos para contar e falar sobre si. Percebi que alguns estudantes sentiam-se
incapazes de enfrentar os desafios que o mundo lhes impõe e alguns grupos de
colegas e até suas famílias reforçam esse sentimento. Diante disso, desistem
antes mesmo de começar algo, pois julgam que não vão dar conta. Resgatar a
autoestima desses jovens e fazer com que eles acreditassem na capacidade de
aprender, de enfrentar os desafios, de se esforçar e se dispor para a
aprendizagem, foi uma experiência gratificante.
É importante salientar que o
resgate e a estruturação da história de vida de cada estudante não foi um
processo simples. Senti o quanto as famílias se esforçaram para contribuir com
o projeto e como puderam partilhar esse momento com os jovens. Isso determinou
que contar a história de vida e as memórias da comunidade pudesse se converter
em um momento importante, bastando lembrar o respeito com que os colegas
tratavam quem estava contando e dividindo sua história. Sentimos o quanto a
participação dos familiares foi essencial para o aprendizado e envolvimento dos
estudantes.
Diante do exposto, não podemos
esquecer que, por mais precárias que
estejam algumas de nossas escolas, ainda são elas e seus profissionais que
acolhem, identificam problemas pelos quais os estudantes passam fora delas,
esforçam-se para resolver e fazê-los acreditar que são capazes de enfrentar os
desafios e se reinventarem.Tendo em vista que a educação é um processo
presencial e que é um direito, podemos dizer que acontece melhor quando há
vínculo. Nesse sentido, o pertencimento a determinado grupo (a escola, a
comunidade, o time), a aceitação pelos demais, o sentir-se valorizado e o
compartilhar realizações são fatores favoráveis tanto para a construção da
autoestima quanto para a adoção dos valores desse grupo.
Logo, se desejamos a autonomia
dos estudantes, é essencial que eles aprendam a refletir as decisões que
precisam tomar no dia a dia: aprender a
pensar sobre os valores que estão em jogo, sobre as causas e as consequências
de diferentes decisões, sobre as intervenções necessárias para fazer valer os
princípios de justiça e solidariedade, considerando a perspectiva do bem comum.
Se queremos que eles aprendam a respeitar ideias diferentes das suas, temos que
ensiná-los a dialogar. Assim, é possível que essa capacidade e atitude de
refletir e decidir com base em princípios se desenvolvam e se tornem cada vez
mais potentes.
Mário Disnard é professor, com graduação
em História e Gestão em Recursos Humanos. Possui pós-graduação em Gestão do
Capital Intelectual e Coordenação Pedagógica. Foi Articulador da EJA da
Prefeitura Municipal de Caruaru. Tem experiência na área de Administração. Foi
coordenador do Fórum Estadual de Educação de Jovens e Adultos biênio 2014/2016,
Foi vice-presidente dos Conselhos Municipais de Assistência Social e Direitos
da Criança e do Adolescente de Caruaru. Participou da Construção do Plano
Municipal de Educação de Caruaru. Pesquisador em EJA com publicações Nacionais
e Internacionais. Em 2020 lançará o livro com a mesma temática do trabalho
apresentado em Portugal pela editora Appris.


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