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O dominó de Paulo

 Se, com o dedo ou por meio de um solavanco qualquer, de propósito ou por descuido, derrubarmos a pedra da frente de uma ou mais carreiras de dominós, esta fará cair a peça imediata e as seguintes. Haverá uma espécie de reação em cadeia. Rapidamente, uma após outra, todas as pedras estarão por terra.

O apóstolo Paulo coloca os mais importantes temas da teologia cristã dentro desse curioso fenômeno.

 

I.

É assim que ele explica a queda da raça humana. Adão era a pedra da frente, a primeira peça do dominó. Todos nós estávamos atrás dele. De sua permanência. Mas o primeiro homem caiu e por ele “entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte” (Rm 5.12). A carreira era comprida demais e até hoje a reação em cadeia não acabou. Essa é a maior tragédia de todos os tempos e a única explicação para os problemas do mal. Ninguém consegue parar essa sucessão de dominós em queda, deitando-se um sobre o outro. Daí dizer Paulo que “pela ofensa de um só” (5.15, 16, 17 e 18) ou “pela desobediência de um só homem” (5.19) “veio o juízo sobre todos os homens para condenação” (5.18).

 

II.

Mas, graças a Deus, é assim também que Paulo explica a salvação e o levantamento do homem em Cristo. Na sua graça e misericórdia, Deus cria mais uma fileira e abre tantas vagas quanto necessárias e coloca na frente aquele que é curiosamente chamado de segundo Adão (ou “o último Adão”, em 1 Coríntios 15.45), a primeira pedra, o Senhor e Salvador Jesus Cristo. Ele foi tentado à nossa semelhança, mas não se tornou semelhante a Adão em sua queda. Porque não transformou pedras em pão, não se atirou de cima do pináculo do templo, não se encurvou perante Satanás, não deixou de beber o cálice da morte, não desceu da cruz nem foi contido pelos grilhões da morte. Há segurança total, absoluta e eterna para quem se coloca atrás dessa “pedra que vive” (1Pe 2.4) e não cai, em hipótese alguma, embora seja rejeitada por muitos construtores desde os tempos apostólicos (At 4.11). “Por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida” (Rm 5.20).

 

III.

O grande teólogo do cristianismo usa a ilustração do dominó em outra passagem das Escrituras. Preocupado com alguns membros da igreja de Corinto que não acreditavam na ressurreição dos mortos, Paulo demonstra que essa doutrina tem a proteção da ressurreição de Cristo e negá-la seria negar também a ressurreição de Jesus. Em outras palavras, a ressurreição do Senhor é a primeira peça do dominó. Se esta está de pé, as outras também estão. Para negar qualquer doutrina sob a cobertura da ressurreição de Cristo, o contestador se obriga a negar tudo, inclusive que Jesus, “depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis” (At 1.3). Nesse caso, há o caos, a derrubada total: a pregação apostólica é vã e mentirosa, a fé dos salvos é vazia, ninguém foi perdoado de seus pecados, os que morreram em Cristo pereceram e os crentes são os mais infelizes de todos os homens. O quadro seria despertador se Paulo não reafirma-se que a primeira pedra continua de pé: “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo Ele as primícias dos que dormem (1Co 15.12-28).

 

Não é sem razão que o autor desses arrazoados termina em deles agradecendo a Deus por nos dar a vitória “por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo” e exortando os seus leitores a serem “firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é em vão” (1Co 15.57-58).

 

Fonte: Ultimato

Texto originalmente publicado na edição 105, novembro de 1977, de Ultimato.

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