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No mês internacional da Língua de Sinais e Pessoas Surdas, conheça a trajetória de uma pedagoga em defesa da educação bilíngue no Brasil

 Em setembro, celebramos os dias nacional e internacional da pessoa surda e a semana da Língua de Sinais. E, para tratar as datas com a sensibilidade que merecem, nada melhor que conhecer uma história de superação que começou sem som, já que Katelyn de Sousa Marquez só começou a ouvir aos cinco anos de idade.

Até então, sua perda auditiva bilateral passava despercebida, até que uma professora notou que a menina não respondia aos chamados em sala de aula. A partir dali, começou uma jornada marcada por barreiras, mas também por descobertas que moldaram sua vocação: transformar a educação de crianças surdas no Brasil.

A infância foi de desafios. Sem acesso a Libras, a língua brasileira de sinais, ela dependia da leitura labial para acompanhar as aulas. "Muitas vezes, os professores davam explicações de costas para a turma. Eu não conseguia entender, me sentia perdida e sofri com reprovações", relembra.

A virada aconteceu aos 9 anos, quando ingressou em uma instituição referência no ensino bilíngue. Lá, teve contato com a Libras pela primeira vez. "De repente, vi crianças se comunicando em uma língua visual, que até então eu não conhecia. Foi como abrir uma porta para um mundo novo. Fiz amigos, aprendi rápido e finalmente me senti parte de uma comunidade", conta.

 




A urgência do acesso precoce a Libras

Ao mesmo tempo em que ganhava acolhimento, Katelyn passou a perceber um problema estrutural: muitos colegas chegavam tarde demais ao contato com a Libras, muitas vezes só depois dos 7 anos. Esse atraso comprometia o aprendizado do português escrito e falado, além da autoestima. "A infância é a fase mais importante para a aquisição da linguagem. Quando isso é negado, o impacto acompanha o surdo por toda a vida", explica.

Essa percepção se tornaria a semente de seu propósito profissional. Durante o ensino médio, participou como bolsista de um projeto na Universidade de Brasília, onde produzia vídeos e histórias para sensibilizar a sociedade sobre a importância da Libras.

 

Do sonho à prática: educadora bilíngue

Determinada a mudar realidades, Katelyn ingressou no curso de Pedagogia. Hoje, aos 28 anos, atua no ensino de crianças surdas e também de alunos com múltiplas deficiências, como autismo e transtorno global de desenvolvimento (TGD). O método é pautado na individualidade: "Cada aluno tem seu tempo e sua forma de aprender. O meu papel é mostrar que todo surdo é capaz de crescer, conquistar dignidade e realizar sonhos".

A trajetória da pedagoga dialoga com um debate atual no Brasil: a necessidade de fortalecer a educação bilíngue em Libras e português, reconhecida em lei, mas ainda desafiada pela falta de políticas públicas consistentes e formação de profissionais. "A Libras não é apenas um recurso, é a chave da inclusão. Quando respeitamos a língua do surdo, abrimos caminho para autonomia, cidadania e futuro", defende. "O que me move é a certeza de que cada criança surda merece ser compreendida desde cedo. A inclusão começa quando reconhecemos a língua, a cultura e a identidade do surdo", finaliza a professora.

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