A voz humana é o único instrumento do qual se pode dizer que foi criado por Deus. Um piano Steinway topo de gama pode custar o preço de um apartamento em Lisboa, mas não há preço para as cordas vocais com que cada um/a de nós nasceu.
Para mim, onde se nota a mão de Deus na voz humana é o facto de ninguém a querer ouvir isolada da participação de outras pessoas. Ninguém teria ido ouvir Maria Callas a cantar sozinha "a cappella" num teatro sem orquestra, sem coro e sem outros colegas cantores. Uma voz a cantar sem ninguém não suscita entusiasmo. Cantar requer junção: outros têm de se juntar a nós, para que, por meio da voz, façamos música em conjunto.
Como instrumento musical próprio e único de cada um, a voz ensina-nos também a aceitar-nos como somos. Quando mudei de voz na adolescência, fiquei desolado por não ser tenor. Que desilusão ter recebido de Deus uma voz grave!
Mas porque nenhum cirurgião do mundo seria capaz de substituir as minhas cordas vocais pelas de um tenor (já agora clonadas das de Pavarotti, pelo menos!), a voz que tenho obriga-me a aceitar-me como eu sou.
Se, em isolado, a minha voz não é grande "espingarda", ela torna-se mais aproveitável quando se junta a outras vozes. Descobri isso em 1979, quando fui convidado para integrar o Coro de Câmara do Conservatório de Lisboa. Cantar naquele grupo pequeno de cantores - com outros baixos, com tenores, com contraltos e com sopranos - fez com que a minha voz soasse melhor. A necessidade de a adaptar às dos meus colegas do coro torna a minha voz mais bonita.
Cantar na igreja tem, além disso, a vantagem de as igrejas favorecerem as vozes. As vozes menos bonitas ficam lindas; e as bonitas ficam lindíssimas. Juntar a nossa voz às das pessoas que cantam ao nosso lado não só simboliza como corporaliza os ideais cristãos da harmonia, da consonância, do entendimento mútuo e da paz.
Cantando, aceitamos quem somos (porque não podemos cantar com a voz de outrem, por muito que quiséssemos). E damos graças pelos outros ao nosso lado, cujas vozes, juntas, fazem com que todas soem melhor.
(Na imagem, Cristo Rei pintado por Hans Memling, bem acompanhado por anjos a cantar).
Frederico Lourenço é escritor português
Fonte: Facebook do Frederico Lourenço
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