‘Alma de sertanejo, um espelho do Nordeste Vivo’: exposição multissensorial retrata dilemas e belezas da região e provoca reflexões existenciais durante o São João de Caruaru
O Centro Multicultural do Alto do Moura é palco da exposição ‘Alma de Sertanejo, um espelho do Nordeste Vivo’, que segue aberta para visitação e aquisição de peças até o dia 28 de junho. Idealizada e produzida por William Smith, a mostra garante uma experiência inclusiva, interativa e imersiva, possibilitando ao visitante a oportunidade de imergir na essência do Nordeste, onde também pode encontrar a essência de sua humanidade.
É possível afirmar que, na mostra, o vocábulo “sertanejo” adquire uma ampliação semântica, pois não se limita aos aspectos geográficos – a exemplo do que se observa em telas como ‘Caruaru na ressignificância sertaneja’, de Glauco Lima. Semelhantemente, o visitante é instigado a ressignificar conceitos, a partir de reflexões provocadas de forma visual, auditiva, olfativa e táctil.
A experiência passa por uma rota expositiva, na qual o visitante percorre diversos espaços, os quais se amalgamam em um todo indivisível. A mostra conta com peças de 37 artistas do agreste pernambucano, retratando nuances e facetas que espelham a vivência nordestina. Em meio às telas, são disponibilizados fones de ouvidos com áudios de aboio puro, proporcionando uma imersão sensível às cenas retratadas nas obras.
Ao lado deste espaço, há a Sala Memória, na qual o idealizador expõe elementos da casa de sua avó, desde quadros fotográficos até um pote d’água, passando por rede, oratório, cadeira e até um urinol. O ambiente serve como um convite às origens, provocando sensações variadas no público.
Em anexo, está a sala ‘A mão do homem mata mais que a sede’, uma denúncia socioambiental intimista, em que uma luz avermelhada representa o calor causticante do Sertão, ao mesmo tempo que a climatização traduz o esfriamento do amor no coração humano. “Na minha infância, vi a carcaça de um boi em estado putrefato e, dentro dela, um saco plástico. Meu avô me explicou que aquele animal havia sido morto por causa de ter ingerido aquele saco, certamente jogado no pasto por alguém que passava. Ali percebi que a mão do homem pode matar”, conta Smith, explicando o cenário retratado no lugar. A sala ainda é permeada por estrofes escritas por Jefferson Declamador, representando a poesia que brota da tragédia. “Quem olha essa exposição / Olha por dentro também / Pois vê naquilo a lição / Que o mundo já não contém / Que a morte não vem do chão / Mas daquilo que o homem tem”, diz uma das estrofes.
Integra a mostra o Mural dos Artistas, com fotografias de nomes como Marcos do Pífano. Inclusive, há no local um instrumento por ele produzido, o qual pode ser manuseado pelos visitantes. Destaca-se ainda a obra ‘Voando sobre rodas’, fotografia de Ricardo Henrique registrando os dançarinos Enelson Santos e Gracyelly Maria em uma performance repleta de emoção.
Ainda faz parte da exposição a Sala de Audiovisual, exibindo um documentário acerca do músico Sebastian Silva, uma jovem referência na preservação das raízes musicais nordestinas. Também espelhando o Nordeste vivo, a mostra conta com uma plantação de milho envolta em um cercado. Costumeiramente, crianças que visitam o espaço aprendem como se fabrica uma cerca e ainda manuseiam a terra e as plantas. Assim, as sementes podem ser entendidas como uma metáfora das crianças que as visitam, pois ambas contêm infinitas possibilidades, mas carecem de ser cuidadas para crescerem e frutificarem.
Uma das marcas do trabalho é o respeito ao artista e à obra. “Entendo a obra como a raiz; o artista é fruto da arte, mas todo fruto é capaz de tornar-se semente e enraizar novas árvores”, compara Smith.
A exposição ‘Alma de Sertanejo, um espelho do Nordeste Vivo’, homenageia Petrúcio Oliveira (in memoriam) e Mestra Nicinha Otília. A curadoria é de Daniele Guerreiro, Josélito Vasconcelos e William Smith. Uma exposição marcada pela presença de mais quatro mestres do barro: mestra Socorrinho Rodrigues, Mestra Margô, Mestra Ivonete e Mestre Cícero. Ademais, o poeta Davi Geffson, presidente da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, escreveu toda a rota da acessibilidade em cordel.
Votação aberta
O público ainda pode participar de outra forma da mostra: por meio da votação aberta que premiará uma obra da exposição. Os interessados podem votar quantas vezes quiser, através do link do Formulário Google, também disponibilizado na bio do instagram @williamsmith_oficial.
Outras exposições
Esta é a terceira
mostra consecutiva que William Smith apresenta nos festejos juninos
de Caruaru. A primeira foi ‘O São João 2024 - Sinergia dos
Sentidos’, que contou um recorte da cultura caruaruense. No ano
passado, foi a vez da exposição ‘Múltiplas faces’, contando
com diversas linguagens de arte. Em 2026, a mostra ‘Alma de
sertanejo, um espelho do Nordeste Vivo’ consolida o Centro
Multicultural do Alto do Moura como um reduto imersivo no período
junino. A expectativa é de permanência e ampliação no próximo
ano, de modo a valorizar cada vez mais os artistas e as artes da
Capital do Forró.

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