“Homenagem que desomenageia”: Governo Federal posta “cordel” que parece ter sido feito por IA e gera críticas da categoria
Nesta quarta-feira (24), a página do Governo Federal no Instagram (@govbr) publicou um carrossel no qual se prometia retratar a cultura nordestina nas festas de São João por meio de um “cordel”. Entretanto, qualquer conhecedor raso dessa literatura consegue perceber que o texto em tela não está adequado às exigências do Cordel, sintetizadas na tríade rima, métrica e oração. Assim, o que poderia ser uma homenagem foi recebido por grande parte do público como um desrespeito às raízes culturais da região.
Comentando a postagem, vê-se o pesquisador Marco Haurélio – uma das maiores referências no assunto – indignado com a situação. “Esse ‘cordel’ foi feito com ‘inteligência’ artificial?Desmetrificado, torto, sem fluência. A Literatura de Cordel é patrimônio cultural do Brasil. Ver a página oficial do Governo postando um pastiche de cordel, quando poderia ter contratado um(a) cordelista para produzir um conteúdo de qualidade, é desanimador”, lamentou.
Devido à falta de assinatura e à qualidade duvidosa da construção dos versos, muitos afirmam que parece é que a “obra” fora escrita por algum aplicativo de inteligência artificial, o que representa um desrespeito simbólico e material à arte do cordel, bem como aos seus produtores.
Ainda nos comentários, respondendo a uma internauta, Haurélio explanou: “Falta métrica, mas falta, também, oração. E faltou chamar um(a) detentor(a) do patrimônio para produzir um cordel de qualidade. Trata-se de um simulacro de cordel, e isso é inaceitável”, expressou.
O cordelista Costa Senna, que é um dos fundadores do movimento Caravana do Cordel em São Paulo, também rechaçou a situação. “A falta de conhecimento sobre o cordel faz algumas pessoas comentarem de forma que fortalecem os erros e isso desvaloriza a literatura de cordel”, escreveu, num comentário.
O também cordelista Marciano Medeiros, que acumula muitos prêmios literários, classificou o episódio como um “homenagem que desomenageia”. “Realmente estrofes geradas pelo artificialismo da inteligência artificial. Temos quadras capengas e despidas de sentimento poético. É um tipo de homenagem que desomenageia a arte que imortalizou Leandro Gomes de Barros”, declarou na mesma postagem.
A jornalista e cordelista Maryana Damasceno fez coro às críticas. “Aproveito aqui para acrescentar: o Cordel, nosso patrimônio cultural e imaterial reconhecido pelo @iphangovbr tem características próprias para assim ser identificado. Uma delas é a métrica, que deve ser seguida em respeito à preservação do estilo literário. Faltou isso pro post ficar perfeito”, amenizou.
Até agora, o Governo Federal não se pronunciou sobre o assunto.

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