Relações partidas e conflitos pessoais se apresentam como um
dos grandes desafios humanos. Saber como agir e reagir em tais cenários requer
graça, perdão, humildade e força. E tudo vem do Senhor.
Diversas reações se desenham em meio aos conflitos pessoais,
sobretudo quando desembocam em críticas e promovem decepção. Alguns, quando
ofendidos, retribuem na mesma ou maior proporção, pagando o mal com o mal. As
vezes o fazem de forma beligerante e explícita, outras vezes encoberta ou até
mesmo torneada por palavras espirituais. No fundo do coração o intento é que o
outro, o ofensor, em alguma medida, sofra. Há também aqueles que se afastam o
máximo possível do ofensor e, mesmo quando obrigados à indesejada convivência,
mantém um claro distanciamento afetivo. Esses não traduzem a mágoa em ódio, mas
em indiferença, matando o outro no coração. Em casos assim, a mente
humana repassa periodicamente os erros do ofensor, construindo uma amargura
embutida que promulga a convivência sem perdão. Outros, ainda, partem para o
confronto aberto, seja direta ou indiretamente, expondo o coração e expressando
toda a tristeza e decepção que sentem. Buscam o alívio por meio de um
implacável desabafo que visa a tornar o próprio coração mais leve, o que, para
a decepção geral, frequentemente não acontece.
Eu o convido a refletir no modelo de Jesus após ser traído
pelo amigo-discípulo Pedro, em um intrigante encontro nas areias de uma praia.
O relato se encontra em João 21. Jesus havia morrido e
ressuscitado. Havia aparecido para seus amigos e discípulos e a Palavra nos diz
que “tornou Jesus a manifestar-se aos discípulos” (v. 1). Algumas coisas deviam
ser feitas antes de subir para o Pai e enviar o Espírito Santo. Uma delas era
tratar com Pedro, que o negara publicamente três vezes. Justamente ele, o
discípulo valente, parte do círculo menor de amigos, destaque de liderança
espiritual, aquele que havia sido pessoalmente alertado sobre os desafios da
lealdade e respondeu afirmando que jamais trairia o Mestre.
Pedro e amigos foram pescar quando Jesus apareceu,
instruindo-os a lançar a rede à direita do barco. Obedecendo, pescaram grande
quantidade de peixe. Um dos discípulos reconheceu que é Jesus quem lhes falava
e, assim, Pedro rapidamente se lançou ao mar para encontra-lo. Jesus os
aguardava na praia preparando o fogo para assar o peixe e terem uma boa
refeição com peixe e pão. O convite foi simples e claro: “vinde, comei” (v.
12).
Jesus se encontrou com Pedro em um ambiente acolhedor, em
uma roda de amigos e em meio a uma gostosa refeição. Era o momento ideal para
tratar do conflito que se abateu entre o discípulo e seu Mestre, entre o
pecador e o Messias, entre dois amigos. Pedro havia negado a Cristo três vezes
de forma decepcionante.
Após terem comido, Jesus iniciou a conversa sem
centraliza-la nas ações de Pedro, mas em seu coração. Talvez Pedro esperasse um
confronto direto: “você pode me explicar o que aconteceu naquele dia?”. Ou uma
dura admoestação: “eu não havia lhe alertado sobre o perigo do pecado?”. Ou
ainda uma temida palavra pessoal: “pensei que éramos amigos – esperava mais de
você”. Surpreendentemente a pergunta de Jesus foi outra: “Tu me amas?”. E Jesus
a repete três vezes (v. 15-17).
“Tu me amas?” é uma pergunta pessoal, relacional e pastoral.
Pessoal, pois é lançada sobre Pedro. Não trata genericamente dos discípulos,
amigos ou igreja, mas de uma pessoa, Pedro. Não se refere aos movimentos do
Reino ou desdobramentos públicos da atitude do discípulo. “Tu me amas?”
simplesmente o trás para um círculo íntimo e pessoal de diálogo, pois quer
tratar do seu coração. A pergunta é também relacional, pois não se trata
somente de Pedro, mas da relação de Pedro com Jesus. E o impele a sondar seu
coração sobre suas motivações e convicções mais profundas nesse relacionamento.
O assunto não gira em torno das habilidades, posição ou influência de Pedro,
mas da natureza de um relacionamento pessoal. Por fim, é também pastoral, pois
tem uma clara finalidade de edificação. Jesus não intenta apenas passar a limpo
sua relação com Pedro ou simplesmente encerrar um conflito. Ele deseja ver
Pedro crescer em sua fé, sua vida e seu trabalho.
Sim, Jesus já havia ensinado que o crescimento espiritual se
dá por meio da relação com o Pai, não pela religiosidade; da convicção pessoal,
não do mero entendimento; do amor e não da lei. E aqui, entre a mensagem da
ressurreição (Eu sou o Cristo!) e a grande comissão (anunciem o meu nome entre
todas as nações!) Jesus faz a pergunta que define nossas vidas: “Tu me amas?”.
Perante a resposta positiva de Pedro (“Tu sabes que o amo”),
Jesus o instrui: apascenta as minhas ovelhas. Nessa rápida e desconcertante
conversa o Messias trata da identidade e vocação de Pedro, realinhando esses
dois fundamentos da vida cristã: quem somos e o que ele nos chamou a fazer.
Nossa identidade está fundamentada em um relacionamento (amar a Jesus), não em
nossos acertos, erros ou reputação. É pura graça. E nossa vocação se define
pelo compromisso em cumprir a sua vontade (cuidar daqueles a quem ele ama), não
pela nossa habilidade, personalidade, posição ou influência.
Tal cenário aponta para algumas lições que, creio, podem ser
aplicadas na solução de conflitos, quando somos ofendidos ou nos encontramos
decepcionados.
1.
Jesus toma a iniciativa em buscar o seu ofensor.
É Jesus quem provê o momento, busca o
reencontro e prepara o cenário necessário. Quando ofendidos, as vezes assumimos
a postura do distanciamento justificado. Afinal, o ofensor é quem deve nos
procurar, retratar-se, buscar o perdão. Não é isto que Jesus fez. Ele tomou a
iniciativa de forma amorosa.
2.
Jesus cria um ambiente acolhedor para se
encontrarem.
Cristo convida o discípulo pescador para um
encontro na beira-mar, ao redor do fogo e em meio a uma gostosa refeição com
peixe e pão.
Quando ofendidos, as vezes criamos um
cenário intimidador ou que, ao menos, nos assegura alguma vantagem. Jesus fez o
oposto, chamando Pedro a uma conversa entre amigos, em um ambiente informal,
não propício ao simples confronto, mas ao profundo quebrantamento. Cristo não o
lançou ao tribunal da censura, antes o convidou à roda da amizade.
3.
Jesus tem um intento que vai além do perdão.
A agenda de Jesus vai além do perdão, pois
deseja ver Pedro amadurecido na fé e restaurado no ministério. Quando
ofendidos, visamos a seguir até o limite do perdão, que já é, por natureza, um
difícil limite. Jesus vai além, pois deseja que Pedro cresça, amadureça, não
erre mais. E também que frutifique.
4.
Jesus o lembra de sua identidade e vocação.
O interesse de Cristo é Pedro, não apenas o
que Pedro pode fazer. Dois marcantes lembretes de Jesus a Pedro: que ele é
chamado a um relacionamento de amor e que, amando e seguindo o Mestre, é também
convidado a trabalhar em seu Reino. “Tu me amas?” aponta para a identidade
cristã, enquanto “Apascenta as minhas ovelhas” atesta nosso chamado à missão.
Revisemos o roteiro: Jesus toma a
iniciativa buscando quem o ofendeu, cria um ambiente acolhedor para se
encontrarem, tem um alvo de edificação que vai além do perdão e encoraja o
ofensor à fé e à missão.
Que esse modelo de Cristo se reflita em
nossas vidas, relacionamentos e busca por solução de conflitos, pois disse
Jesus: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu
vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois
meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João 13: 34,35).
Fonte: Blog do Ronaldo Lidório

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