“O Cordel possui potenciais incríveis de formação intelectual, leitora, cidadã e social”, analisa o poeta Manoel Cavalcante
Durante uma passagem por Caruaru, o poeta potiguar Manoel Cavalcante concedeu entrevista ao Blog Conexão Caruaru e analisou o atual cenário da cultura popular, observando o papel da categoria para ocupar espaços estratégicos e lutar em prol da perpetuação da arte. Confira.
CONEXÃO CARUARU – Você é um defensor da Beleza na Literatura de Cordel. Como é que a beleza pode transparecer nessa literatura?
MANOEL CAVALCANTE – Eu acho que a beleza precisa prevalecer em todos os campos, em todas as expressões da nossa vida. No caso do Cordel, eu acho que a matéria-prima para se obter a beleza, a ‘beleza e graça’, como diria Patativa do Assaré, é justamente ser um grande observador, tentar ser um grande observador do nosso cotidiano, do que acontece ao nosso redor, para transformar numa linguagem poética, numa linguagem metafórica, esses eventos e acontecimentos que ocorrem ao nosso redor.
CONEXÃO CARUARU – Quando a gente pensa em Cordel, tem muito valor a questão técnica, mas como conciliar aquilo que Camões chamaria de “engenho e arte” no Cordel?
MANOEL CAVALCANTE – Eu gosto de citar o que Fernando Pessoa dizia. Ele disse: “Eu sou técnico, mas eu só sou técnico dentro da técnica”. Eu acho que a técnica só serve para ela mesma.
A poesia que a gente escreve, o Cordel, tem sua técnica, inclusive com bases muito sólidas e rígidas. É preciso cumpri-la, mas, se houvesse uma competição entre as duas, eu preferia que o belo, a poesia, a linguagem poética, prevalecesse sobre a técnica.
Porque hoje eu conheço, a grande maioria dos nossos poetas e poetisas são versificadores. E poetas eu considero poucos na nossa literatura. Então eu me preocupo muito mais em passar o lirismo, a mensagem, do que cumprir a técnica.
Apesar de ter o respeito fundamental por ela, porque se existe uma regra, a gente precisa cumprir. Agora a gente não pode se aprisionar nela. Eu já escrevi – e escrevo, conscientemente – estrofes, versos que faltem uma sílaba, se eu não conseguir algo mais bonito que eu julgue no olhar poético, eu deixo conscientemente. Porque eu acho que o que deve prevalecer é realmente a beleza.
CONEXÃO CARUARU – Vamos pensar na relação entre o Cordel e a Educação. Você tem livros adotados como paradidáticos. Você vê a perpetuação do Cordel encontrando a porta aberta pela educação?
MANOEL CAVALCANTE – Na verdade, eu não vejo a perpetuação, mas eu luto por ela. A gente luta por essa perpetuação.
Eu acho que ao mesmo tempo em que a gente ainda sofre certo tipo de preconceito, nós estamos também conseguindo ocupar bons territórios e bons espaços e chegar a lugares onde merecíamos estar há muito tempo. Então eu acho que há um vazio conceitual muito grande ainda na nossa sociedade, que eu considero um processo muito complexo, parte da academia. Se a academia não respeita a literatura popular, o Cordel, então os futuros professores também não, os futuros alunos também não. A sociedade também não. E, por incrível que pareça, os cordelistas também não. Eu acho que todo mundo precisa ter esse processo de apropriação conceitual para que a gente se solidifique como literatura, como gênero literário, como gênero poético.
Aos poucos, nós vamos ganhando os espaços que merecemos já há muito tempo. Eu acho que precisamos acordar para isso. O Cordel possui potenciais incríveis dentro da escola, dentro da formação intelectual, formação leitora, formação cidadã, formação social.
Então acho que a gente precisa acordar. Eu, pelo menos, vim a Caruaru justamente para isso também, para divulgar as nossas obras nas escolas, para as pessoas se apropriarem da nossa poesia.
CONEXÃO CARUARU – O atual ‘boom’ da Inteligência Artificial, na sua opinião, desafia o Cordel de alguma forma?
MANOEL CAVALCANTE – Olha, esse debate, inclusive, permeou a reunião do Leia Cordel (primeiro clube de leitura e debate sobre Literatura de Cordel em Caruaru) da qual participamos. Eu acho que não. Eu acho que não há ameaça não, porque poesia significa sentimento, coração, alma. Manoel do Barros dizia que poesia não servia para nada, mas eu acho que serve para muita coisa. Se existisse uma função para a poesia era comunicar as almas, comunicar as energias das pessoas.
Então a poesia serve para isso e a IA nunca vai conseguir isso. A IA vai conseguir contar a sílaba, mas muito mal, porque a gente já vê quanto pede. E não vai passar disso, até onde a gente já procurou pesquisar sobre esse assunto.
CONEXÃO CARUARU – Você é um autor que se autopublica atualmente. Você passou por algumas editoras. A autopublicação é um caminho para os escritores poderem alçar voos maiores?
MANOEL CAVALCANTE – O final da sua pergunta complicou um pouco a minha resposta (risos). Para alçar voos maiores, eu talvez tenha um receio em afirmar isso, porque o poder de difusão da autopublicação é menor do que de uma editora. Mas ela é o caminho para você se encorajar e se entusiasmar mais a continuar na caminhada.
É o caminho mais honroso, é o mais difícil, é o mais pedregoso, mas é o que menos você será explorado por pessoas alheias ao seu processo, ao seu fazer literário. No entanto, eu também considero, não há como negar, que o poder de difusão de uma editora é muito maior do que de uma autopublicação. Então você faz sua autopublicação sabendo que é um caminho difícil.
Se talvez tivesse uma editora, teria um poder de divulgação maior do que o da autopublicação. Isso eu não posso negar, mas quando me perguntam, é o que eu aconselho, a autopublicação. É o mais difícil, junte o seu dinheiro, corra atrás, bata em portas, leve não, porque quando tudo der certo, sua publicação se concretizar e você vai ter um brilho no seu olhar maior do que se fosse em uma editora.
CONEXÃO CARUARU – Você veio a Caruaru, inclusive, para fazer o lançamento de dois livros. Fale-nos um pouco sobre eles…
MANOEL CAVALCANTE – Este ano, a gente está lançando ‘Rimas Políticas’ e ‘Se Eu Não Fosse Nordestino, que Diacho eu ia ser?’. Eu estou lançando de dois, só ver se pega pelo menos um em alguém, né?
Em ‘Rimas Políticas’, as poesias tratam de muitas temáticas sensíveis, racismo, machismo, homofobia, soberania nacional, respeito à democracia, negacionismo, letramento histórico.
Em ‘Se Eu Não Fosse Nordestino, que Diacho eu ia ser?’, a gente faz um debate, uma ampliação sobre a pluralidade da nossa região, da nossa identidade, o combate ao preconceito, como também reafirma, a gente não pode abrir mão, reafirma as nossas características culturais, as nossas características identitárias. Então a gente está com essas duas obras. Fui muito bem recebidos aqui em Caruaru, o que me motivou a voltar. Vim uma vez em 2023 e voltei esse ano justamente porque é uma terra que nos recebe muito bem.
CONEXÃO CARUARU – Como você avalia o Cordel em Caruaru?
MANOEL CAVALCANTE – Vocês, aqui em Caruaru, possuem uma militância muito boa, muito forte. Hoje mesmo (dia 22 de agosto, enquanto gravamos esta entrevista) nós estamos aqui com escritores de Fortaleza também. Eu vim do Rio Grande do Norte. Então, Caruaru é como se fosse a capital mundial do cordel, da cultura popular, todo mundo quer vir pra cá. Então, vocês continuem com essa luta de vocês porque engrandece muito, muito, muito de verdade a nossa arte. É espetacular.
Fotos: Davi Geffson/Divulgação
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