Em memória de João Antonio
Tinhas quatro ou cinco anos. Eu, seis ou sete. Dois anos e dois meses de diferença. A vida nos colocou como vizinhos. Éramos quase como irmãos.
Voltava da escola e já sabia que, em breve, tu me chamarias à porta. Ou iria eu até tua casa. Brincadeiras, leituras, músicas, conversas faziam parte desse repertório diário.
– Até breve, meu amigo! – era mais ou menos assim que nos despedíamos. Sabíamos que o outro estaria lá.
E assim foi por anos.
Todos os dias.
Não me lembro quando foi o último “até breve”.
Talvez a faculdade, talvez o trabalho… outros compromissos, outras rotinas… o tempo não era o mesmo…
“Não vou nem chamá-lo; ele não estará em casa”, era o que eu pensava ao passar em frente a tua casa. E tu pensavas o mesmo diante da minha…
Isso jamais abalou nossa amizade.
Podíamos não estar em casa; estávamos presentes, a despeito disso.
Nos momentos fortuitos em que nos víamos, o sentimento era o mesmo. Gratidão, amizade, sinceridade.
Eras o retrato vivo e fiel de um passado não muito distante, mas intangível. Meu eu adolescente se encontrava com meu eu adulto cada vez que nos víamos. As conversas já podiam ser breves, mas profundas e reais.
Fui impactado com a notícia de que não estás mais conosco. Teu coração, talvez por sentir as dores do mundo de modo tão profundo, não estava com o mesmo vigor – apesar da juventude.
Não foi somente teu coração que parou.
Foi o tempo.
Não tenho mais os ecos da juventude.
Passarei em frente a tua casa sabendo que não mais estarás lá, não mais poderei te chamar.
E tu não poderás mais vir a meu encontro.
Sei, contudo, que um dia irei. Também a “indesejada das gentes” virá visitar-me. E levar-me-á.
Por ora, resta uma lágrima que escorre por minha face, uma frase embargada na garganta, um cutelo ferindo meu coração.
Por sorte, ainda tenho um alforje de lembranças.

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